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Selma Uamusse, a cantora que põe todos a dançar ao som dos ritmos moçambicanos

21 de Setembro, 2015
Selma Uamusse

Selma Uamusse prepara-se para gravar a sua estreia em nome próprio, juntamente com o produtor e pianista argentino-brasileiro Pablo Lapidusas. Ao explorar as suas raízes moçambicanas, pretende conciliar ritmos originais, letras em línguas nativas e instrumentos tradicionais como a timbila e o mbira, evidenciando as suas muitas outras influências musicais. Após ter conquistado a crítica e o público no primeiro show a solo no Festival de Músicas do Mundo de Sines, Selma Uamusse falou com o Jumia sobre o seu percurso musical, a diversidade dos projectos em que se envolve e a música moçambicana que admira. Leia abaixo a entrevista completa, em exclusivo para o Jumia & Amigos.


Nasceste em Moçambique e vives atualmente em Portugal. No entanto, na tua música, não deixas de voltar às tuas raízes africanas. O que te levou a explorar esta vertente?

Paralelamente ao facto de a minha ligação a Moçambique continuar a ser muito forte, por especial influência da minha família e em particular da minha mãe, o meu percurso musical desde 1999 foi sempre muito diversificado. Comecei e continuo a cantar gospel, passei pela experiência do rock como membro da banda Wraygunn, criei formações de soul e de jazz depois de ter passado pela escola do Hot Clube, tendo explorado o universo da música da Nina Simone e agora a estreita colaboração com o Rodrigo Leão. Toda esta vastidão de experiências culminou naturalmente com a necessidade de investir num projecto a solo. Na altura de decidir, uma forte ligação umbilical fez-me desejar voltar a casa, às raízes. O meu desafio pessoal para a minha carreira futura é com o máximo de honestidade poder aprender mais sobre a música, dança e instrumentação moçambicana, explorá-la, fundi-la e difundi-la aproveitando toda a bagagem que trago das minhas experiências anteriores porque é aí que me sinto feliz, entregue e verdadeira.

A tua mãe é historiadora, o teu pai engenheiro e tu optaste por deixar o percurso profissional na Engenharia para seguir a paixão pela música. A tua família apoiou-te nesta decisão?

Vivo em Portugal sem os meus pais desde os 14 anos de idade, o que significa que desde cedo que eles confiaram muito em mim, nas minhas opções e me deram muito apoio. Esse apoio foi fundamental para terminar com sucesso a formação em engenharia e nos meus simultâneos estudos na área da música e, embora lhes tenha custado que tivesse deixando em banho-maria o meu percurso enquanto engenheira, alegram-se e são muito orgulhosos de todos os meus passos. São as primeiras pessoas a celebrar as minhas conquistas, dando-me forças e ajudando-me sempre a ter os pés assentes na terra, sem deixar de dar asas aos meus sonhos.


Colaboras com vários artistas de diferentes estilos musicais, do gospel ao rock e blues. Podes falar-nos acerca da tua participação nestes projetos? Encarnas várias personas ou continuas sempre a ser a Selma?

Considero-me multidisciplinar mas não multifacetada ou camaleónica... tenho alguma facilidade em aceitar desafios diferentes porque sou também apreciadora de géneros musicais muito diferentes. Tenho uma grande paixão pelo palco, independentemente do papel que tenha, seja como frontwoman ou em papel de suporte mas a persona e a entrega são sempre as mesmas... Eventualmente em função dos projectos posso apresentar uma postura mais espiritual e sacerdotisa (com no Gospel), mais introspectiva (como quando actuo com o Rodrigo Leão), mais visceral e energética (com os Wraygunn), revolucionária, dançante e apaixonada (no jazz e tributo à Nina Simone), mas todos estes lados fazem parte da Selma e são muito evidentes no meu projecto a solo enquanto Selma Uamusse.

Na tua página do Facebook referes que nos teus concertos em nome próprio, dança e movimento são palavras de ordem. O que podem esperar as pessoas que vão ver um espetáculo da Selma Uamusse?

Gosto muito de cantar e essa é a minha principal função e paixão. Mas com ela vem a paixão pela dança, pelos instrumentos tradicionais, as percussões, os ritmos moçambicanos que não me conseguem deixar indiferentes. Com tudo isso existe um lado performativo muito evidente para quem está a ver um concerto nosso... Quem vá ver um concerto pode esperar que dance freneticamente tão facilmente quanto com uma abordagem mais próxima, de olhos nos olhos, que esteja de saltos altos mas que os tire e os volte a colocar. Posso puxar pelo Nataniel (o nosso percussionista) para dançar ou tocar na bateria do Gonçalo ou no teclado do Augusto. É sempre imprevisível, ajo segundo o meu instinto, estado de espírito e público. Havendo choro, contemplação, gozo ou muito movimento, há sempre uma entrega muito grande.


Quando prevês lançar um disco em nome próprio? Podes adiantar-nos alguma coisa?

Este ano tenho algumas colaborações feitas em vários discos. Aquele em a minha voz está mais presente é a colaboração com o Rodrigo Leão e o Coro e a Orquestra Gulbenkian. Em relação ao meu disco a solo, prevejo que seja editado no 1º trimestre do próximo ano.


Voltando a Moçambique, como vês a atual indústria musical no teu país natal? Algum nome que admires?

Sempre que vou a Moçambique, procuro saber mais do que lá se passa... E a verdade é que há muita e boa música a ser feita em Moçambique, seja pela geração mais velha e mais ligada à musica tradicional, seja pela geração mais nova. Parece-me haver muito cuidado com a produção e a qualidade em geral parece-me melhor. No entanto, a nível editorial não haverá editoras fortes presentes para apoiarem os mesmos projectos, as produções de eventos musicais, embora com programações interessantes, terão ainda falta de recursos. Do que é feito vejo com dificuldade a exportação da música moçambicana, tão pouco conhecida além fronteiras (por comparação com outros mercados africanos - Mali, Cabo Verde, Senegal, Angola). Haverá um caminho a percorrer no que diz respeito ao apoio e à promoção na política cultural para que o nosso legado musical possa ser mais (re)conhecido. Ainda assim há músicos a fazer um excelente percurso e que muito me interessam e vou acompanhando caso da Isabel Novela e Miguel Xabindza, com quem já colaborei, dos Timbila Muzimba, Cheny Wa Gune e recentemente fiquei a conhecer o trabalho de Deltino Guerreiro, por via também de outro músico e produtor Milton Gulli que, por sua vez, tem um belíssimo trabalho com o rapper Simba.

Como sabes, o Jumia é uma plataforma que põe em contacto compradores e vendedores, tentando incentivar o comércio local. Achas importante existirem sites como este em Moçambique?

Sim, claro... a Internet tornou-se um bem de necessidade especialmente porque liga rapidamente pessoas, bens e serviços. Cada vez mais é uma ferramenta indispensável no comércio e sendo uma plataforma moçambicana só pode ajudar a trazer mais atenção para o país e para os seus produtos de modo rápido e eficaz. Garantidamente é fundamental existirem este tipo de sites em Moçambique.


Costumas fazer compras na Internet? Tens alguma marca preferida, no que diz respeito a roupa ou outro tipo de artigos?

Sou pouco consumista mas utilizo quase sempre a Internet para comprar bilhetes de avião e comboio, alguns artigos menos acessíveis como discos e livros, também artigos de decoração. Roupa, penso que só o fiz uma vez, até porque sou adepta das roupas feitas à medida, trabalho frequentemente com a estilista Teresa Samissone que me veste e vou ao meu costureiro Tisko sempre que posso, com capulanas que me trazem de Moçambique. Mas mesmo que não compre, acedo à Internet para escolher e ver antes de me dirigir a alguma loja, não sou muito paciente para estar em espaços comerciais.


Para terminar, gostarias de deixar alguma mensagem aos teus fãs moçambicanos?

Tenho um enorme orgulho em ser moçambicana e acho sempre que ninguém me conhece em Moçambique, pelo que me sinto um pouco constrangida mas muito feliz. Ainda assim só posso desejar que possam acompanhar o meu percurso musical, que sigam a minha página e que estejam comigo mas que, acima de tudo, continuem a trabalhar individualmente para fazer de Moçambique um país melhor, do qual todos nos possamos orgulhar em toda as áreas: da educação à cultura, do comércio à política, da saúde à riqueza natural.

Selma Uamusse

Selma Uamusse é uma cantora moçambicana que vive em Portugal desde 1988, cantando profissionalmente desde os 18 anos. Desdobra-se em géneros como o gospel, rock, soul, afrobeat e jazz, contando com várias colaborações com músicos de renome. Mais recentemente, Selma decidiu desafiar-se a si mesma e gravar seu primeiro trabalho a solo entre Portugal e Moçambique.

aosuldomundo.pt

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